quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A VACA CENSURADA

Era o ano de 1972, período marcado por forte repressão da ditadura militar. Praticamente não tínhamos  conhecimento de prisões, censura da imprensa, e outras coisas do gênero.Seguidamente, porém, se ouvia ou se lia alguma informação de combate entre exército e guerrilheiros, prisão ou extradição de algum político. Mas era algo tão distante e manipulada que tudo parecia normal e que tinha que ser assim mesmo. O "normal" era ser patriota, saber de cor o Hino Nacional e marchar bem no dia 7 de setembro. Eu cursava nessa época a IV série do curso Normal Rural. 
O CEJAI tinha a circulação interna do jornal " O Elo". Nele eram publicadas notícias, conhecimentos gerais, informações das atividades do Grêmio Estudantil e havia, também,uma página dedicada ao humor.
O jornal era datilografado em folhas matrizes e mimeografado. Tirava-se a quantidade de cópias que a matriz suportasse.
Eu gostava de desenhar caricaturas engraçadas de colegas ou acontecimentos que continham situações inusitadas. Isso me rendeu alguma fama, sendo convidado a fazer parte humorística do jornal. O povo gostava das piadas e caricaturas e eu fui me entusiasmando. Com frequência alguém pedia para fazer o desenho de um desastrado, só para todos zoarem do "coitado".
Naquele ano houve a eleição para prefeito.Os candidatos eram o nosso diretor Alcides Lucion e o Emídio Perondi.Como envolvia alguém tão próximo e para e para muitos alunos, inclusive eu, era a primeira eleição em que votaria, a propaganda transmitida pelo rádio era acompanhada como um Grenal transmitido pela Rádio Guaíba, narrado pelo saudoso Pedro Carneiro Pereira. Cada radinho era circulado por tanta gente quanto o mais distante conseguia ouvir. Havia aqueles que iam " no bolo para matar algum bidu". Se alguém fumava os biduzeiros ficavam ao seu redor, ele se coçava para tirar o cigarro do bolso e o indivíduo ao lado gritava: - " matei o bidu"! Outro pretendente retardatário, meio desanimada, gritava: - " matei o segundo"! Quando a queima chegava na metade voltavam a importunar: " Capricha aí meu...está acabando como bidu..."
Mas voltando ao assunto, a campanha entrou na polêmica por causa de uma vaca holandesa, de exposição, muito bonita, chamada JULIANA, a qual fazia parte do plantel do gado leiteiro do IMERAB.Não sei por que " cargas d`água" a vaca causou tanto reboliço. Era acusação de cá, defesa de lá. Imaginem...por causa de uma vaca. Pensando bem, deveria ser falta de assunto, já que tudo era censurado e reprimido...
Mas aquele assunto foi um prato cheio para minha folha de charges. Lembro que desenhei uma com o touro junto com a vaca JULIANA. Outras duas estavam longe, sentindo-se rejeitadas.Uma disse para outra:
- " Depois que a JULIANA ficou famosa, o touro ( não lembro o nome) não liga mais para nós".
Noutra charge a vaca havia ido a uma exposição e o touro cantava:
- "Com saudades da JULIANA quase perco La tramontana".
Entreguei a matéria para o Juvelino Dalabrida eao Frizzo, editores do jornal. Eles a consideraram muito boa.
Eu aguardava ansioso a distribuição do jornal. Aquela matéria foi a minha obra-prima. Com certeza faria o maior sucesso. Pensava, na minha ingenuidade, que poderia ter repercussão até na cidade. Quem sabe o Correio Serrano não me contrataria e eu poderia comprar cigarros à vontade, comprar uma roupa nova. Acabaria aquela penúria de passar seco o mês inteiro. Porém, quando distribuíram o jornal, qual não foi minha surpresa ao ver que não constava a dita página de humor. Fui falar com os editores e ao pé do ouvido, eles me explicaram o que havia ocorrido:"Deu o maior rolo, mandaram nós arrancar a página para o jornal poder circular".
O jornal depois de pronto,era levado aos professores, que passavam " o crivo" para liberarem a circulação.Olhando entre as folhas via-se ainda junto aos grampos, restos da folha arrancada. E o pior: avisaram que poderíamos se presos por desrespeito às instituições e às eleições. Passei umas três noites sem dormir direito.Daí em tão entendi até onde chegavam os tentáculos da ditadura...
E a JULIANA? Dizem que foi vendida depois do pleito, já que o nosso diretor perdeu a eleição. Andou lá por Palmeiras das Missões e fez muito sucesso nas exposições de gado leiteiro.

( Texto da revista do Mandiocaço pág.34)
Autor: Egídio Abitante
Estudante do IMERAB ( 1969-1975)
Cursos Normal Rural e Técnico Agrícola.
Mora em São Gabriel do Oeste - MS

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