segunda-feira, 7 de março de 2016

SAUDADES DE UM TEMPO QUE NÃO VOLTA MAIS

O grupo de jovens que ingressou no IMERAB em 1970, buscando a formação de Técnico Agrícola,era numerosa, dividido em duas turmas ("A" e "B"), as, quais, no terceiro ano em 1972, foram unificadas.
O curso era ministrado em período integral, ensino excelente, digno de nota dez, com louvor. Os docentes eram capacitados, dedicados, determinados, persistentes, gostavam do que faziam, e permanentemente reciclavam seus conhecimentos. A prova cabal de tudo isso é o saudosismo que restou naqueles que passaram pelos bancos escolares do IMERAB.
Ensino de boa qualidade constrói fundamentos sólidos, valores éticos e morais, conhecimentos acadêmicos capazes de assegurar condições de prosseguir os estudos em curso superior, em qualquer área do conhecimento.Os colegas do Assis Brasil foram contemplados com essa formação maravilhosa e prosseguiram no ensino superior, mestrado, doutorado, em diversas áreas.
Decorridos mais de 40 anos muita coisa aconteceu, o mundo mudou, hoje vivemos outra realidade tecnológica e os conceitos sociais  são diferentes. As transformações não foram poucas e, para acompanhá-las, os sessentões fazem exercícios diariamente.
Mas vamos retornar ao IMERAB, dar um passeio pelos jardins, praticar esportes, jogar futebol no campo de terra, ou na quadra rústica de asfalto, sem cobertura. Ao toque da sirene, ir ao refeitório ou para as salas de aula. Também faziam do aprendizado as aulas práticas realizadas na Escola Fazenda.
Nos dias em que tínhamos aulas práticas o motorista do caminhão cinza, com bancos de madeira feitos de tábuas encaixadas nas duas laterais da carroceria, com logotipo nas portas - um favo de abelha com os dizeres: " Ijuí: Colmeia do Trabalho" - deixava o veículo preparado, em local e hora certos. E lá vinha a turma para embarcar, sorridente,feliz, alegre, como se estivesse embarcando num avião executivo. Havia, contudo, regras a serem observadas: o lugar na cabine, ao lado do motorista, era espaço privado do professor; na carroceria, quando o caminhão estivesse em movimento, era terminantemente proibido levantar, tanto é que não há registro de acidente no que pese o transporte ser rústico, em carroceria aberta.
Um belo dia, mais uma aula prática na Escola Fazenda ...A matéria era Práticas e Oficinas Rurais,ministrada no segundo ano do curso Técnico Agrícola, para a qual o aproveitamento do aluno não era registrado em nota, mas em "conceito de suficiência". A turma chegou à fazenda e foi direto para a oficina de madeira - uma marcenaria bem montada, na qual, sob a orientação do mestre, nesse dia iríamos construir pequenas banquetas.
Todos concentrados na atividade, que era individual - cada um iria construir sua própria banqueta. Serravam, lixavam, colavam, parafusavam,cumpriam as etapas para ver o produto acabado.Mas, de repente, em frente à oficina encostou um ônibus enorme, com 40 assentos, totalmente lotado de alunas de um colégio de freiras, uma mais linda que a outra, bonequinhas, verdadeiras dádivas da natureza.
A turma de rapazes, ao ver as lindas moças, ficou perplexa, atônita, parecendo não crer no que estava vendo, mas a reação foi instantânea e a vontade coletiva imperou de forma absoluta.Os jovens, esquecendo-se do mestre, da oficina, das banquetas, foram em direção das moças com quem mantiveram diálogos animados, sem sequer olhar para trás e, pior, ficaram surdos às advertências e chamamentos do professor, que ficou sozinho na oficina.
Aquele quadro não foi confortável para o professor e tampouco para as freiras, que logo foram tratando de recolher as moças para o ônibus, e partiram em seguida. Na despedida, porém, não faltaram abraços, beijos e acenos de mão.
Recompondo-se, mas ainda em ruidosa conversa, a turma voltou para a oficina. Ao irem entrando, os alunos foram paralisando... o mestre os aguardava para acerto de contas.Com a ira à flor da pele, destilou veneno e, cabisbaixos, em silêncio, todos ouviram a admoestação que durou alguns minutos.
No encerramento das atividades da aula prática era necessário deixar tudo organizado, com cada ferramenta no quadro, em seu lugar específico. Como algumas ferramentas ficavam extraviadas no meio da serragem , deu muito serviço para localizá-las, mas ao final, deu muito certo e retornamos ao colégio, chateados com a bronca do professor, mas felizes com a visita inesperada.

Ivo F. Cardoso
Técnico Agrícola ( 1970 - 1972) 
Bauru - SP

Revista do Mandiocaço página 19

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